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Estratégia e tática

A distância entre o planejamento estratégico e o plano tático

“Existem mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia”
 Hamlet (Shakespeare)

É comum vermos grandes estratégias não alcançarem seus objetivos, no mundo corporativo e também no individual, do empreendedorismo e até mesmo nas nossas vidas pessoais.
As causas podem ser debitadas à fontes variadas. Afinal um avião não cai apenas por causa da inexperiência do piloto, ou do modelo da aeronave, ou do pitot congelado, ou ainda, do fato do controlador de voo não falar inglês fluente. É uma sucessão de pequenas causas que, dadas ao mesmo tempo, em determinada sequência, causam os graves acidentes, ceifando vidas inocentes. Claro que algumas delas assumem maior importância. Mas nada muda o fato de que o acidente ocorreu e que na maioria dos casos poderia ser evitado.
Mas não somos aeronautas. Somos responsáveis pela entrega de valor ao cliente, aos acionistas e aos stakeholders. Administramos recursos obtidos através da crença de que ao final de um determinado período, ele gerará lucro. Que será revertido em pesquisas, bem-estar, remuneração dos funcionários, em suas carreiras, acompanhando a curva de crescimento do negócio. Somos importantes!!
Trabalhamos com afinco, buscamos as variáveis controláveis do cenário, conhecemos bem a dinâmica do mercado orientamos as forças determinantes do nosso produto ou projeto. Dedicamos um bom tempo na gestação deste “filhote” e muitas vezes, verificamos que os resultados estão longe daquele alocado na proposta do P&L. Mergulhamos na análise dos resultados. Afinal, onde erramos? Que necessidade do mercado não atendemos plenamente? Quais diferenciais competitivos não foram percebidos? Qual valor não foi completamente entregue?
Será que nos dedicamos o tempo suficiente no detalhamento dos passos táticos do projeto? Será que dedicamos o tempo suficiente para comunicar nossas equipes, que estão no front, de todos os detalhes, daqueles cruciais, que de tão óbvios muitas vezes não são sequer comentados?
Sim, é possível e até provável que ao ouvir o feed back real da compreensão da estratégia, sejamos surpreendidos pela lacuna de compreensão entre o plano proposto e sua consequente execução. O desafio de comunicar, de se fazer entender e de preparar as pessoas envolvidas no processo não foi completamente dissecado. A escolha correta das pessoas, o maior ativo das empresas, os depositários do maior investimento doa acionistas, deve cumprir os requisitos de capacitação, de treinamento e claro, de compreensão do desafio e das bases onde foram planejados os resultados. A execução deve conter o mesmo investimento de tempo, as melhores métricas, as melhores táticas. Executar deve ser a completa implementação da estratégia. A execução deve ser acompanhada através dos relatórios, mas deve também ser vista e acompanhada localmente.
Imagine a cena de uma trincheira na guerra. Os soldados encharcados, sendo atingidos pelo inimigo, molhados. Chamam a base das operações e solicitam reforços. Mas a base informa que não há como enviar estes reforços. Não estavam planejados.
É certo que devido ao código militar eles não desertariam. Mas e na nossa guerra?
Nossos homens ouvem e falam e é fundamental envolve-los nas principais etapas do nosso planejamento. É necessário que eles “abracem a causa”. Vivam por ela e, no sentido figurado, morram por ela.
Assim como as empresas precisam de uma missão enunciada logo abaixo do seu logo, as pessoas precisam de uma causa para acreditar e lutar por ela. Incluí-las nas fases do detalhamento, com todos os passos do plano tático, devida e insistentemente comunicadas, e atrelados à estratégia é um passaporte para o sucesso. Ouvi-las antes e durante a implementação é o melhor corretor das rotas e certamente nos dará tempo não apenas de reagir, mas de agir antecipando obstáculos, construindo um verdadeiro processo de aprendizagem e tomando atalhos para o sucesso. Compartilhar as vitórias, celebrar o sucesso e nunca achar que comunicamos o suficiente.
Afinal, a frase de Hamlet nos remete à reflexão de que sempre haverá muitas outras coisas entre o planejamento e a tática, assim como existem, outras tantas coisas entre o céu e a terra.



Eduardo Tadeu Lima e Silva
Executivo de Marketing e Vendas na Indústria farmacêutica

Farmacêutico Bioquímico pela USP, MBA pela FIA

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